Por Priscilla Santos – Nature Canada; artigo original publicado em inglês

Hudsonian Godwit, one of the species that connects Moose Factory, a community on coastal James Bay, Canada, and communities that live by Lagoa do Peixe, Brazil.
Ao longo dos últimos 20 anos, a Nature Canada tem trabalhado com comunidades indígenas da Baía de James, no Canadá, apoiando a identificação e a proteção de áreas importantes para a vida silvestre, especialmente para as aves. A região abriga um dos mais importantes pontos de parada para aves limícolas migratórias da América do Norte.
Nas conversas com membros das comunidades, especialmente com os anciãos, uma preocupação aparecia com frequência: a diminuição das populações de aves limícolas. Muitos relatavam que hoje há menos aves do que no passado e faziam uma pergunta simples, mas profunda: “Para onde elas vão quando partem no final do verão?”.
Em busca de respostas e de novas formas de envolver as comunidades locais, a Nature Canada estabeleceu parcerias com organizações de diferentes países das Américas para adaptar e implementar o currículo Discover Shorebirds nas escolas da Baía de James, ampliando seu trabalho junto a crianças e jovens.
Em junho de 2024, a iniciativa recebeu dois anos de financiamento Neotropical Migratory Bird Fund da agência estadunidense US Fish and Wildlife Service. O projeto conta com apoio e colaboração de diversas organizações parceiras, entre elas o Serviço Canadense de Vida Selvagem, o Governo da Nação Cree, a Moose Cree First Nation, Birds Canada, Manomet Conservation Sciences/Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN) e a SAVE Brasil.

Spring 2025 school field trip with students from the Delores D Echum Composite School, Moose Factory, ON, Canada. Photo by Priscilla Santos
As atividades desenvolvidas até o momento são diversas e incluem capacitações virtuais e presenciais para professores Cree, além de visitas às comunidades durante as migrações de primavera e outono. Nessas ocasiões, estudantes participam de saídas de campo, aprendendo a utilizar binóculos e lunetas para localizar e identificar aves limícolas em seus habitats.
Um dos principais objetivos do projeto é aproximar comunidades que compartilham as mesmas espécies migratórias ao longo de suas jornadas pelo continente. Essa conexão vem sendo construída com sucesso graças à parceria com a SAVE Brasil. Desde 2019, a organização desenvolve iniciativas semelhantes no entorno do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, um dos mais importantes sítios de parada para aves limícolas migratórias da América do Sul.
Embora grande parte do trabalho conjunto tenha ocorrido virtualmente — incluindo intercâmbios entre professores e estudantes do Canadá e do Brasil —, em novembro passado foi possível promover um encontro presencial especial. Dois anciãos Cree da comunidade de Moose Factory, localizada na costa da Baía de James, participaram do 16º Festival Brasileiro das Aves Migratórias, realizado em Mostardas (RS), próximo ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe.

Elders John and Linda Turner with students from the Marcelo Gama school during their November 2025 visit to Lagoa do Peixe, RS, Brazil.
A visita proporcionou uma rica troca de conhecimentos e experiências culturais, incluindo encontros com comunidades pesqueiras, escolas e estudantes da região. Houve também muitas oportunidades para observação de aves, atividade que os anciãos John e Linda Turner apreciaram imensamente — e que lhes permitiu observar até mesmo o maçarico-de-bico-virado (Hudsonian Godwit), espécie que conecta os dois extremos de sua rota migratória.
Como resumiu a anciã Linda Turner:
“No fim das contas, o mundo é grande, mas as aves fazem com que ele pareça muito menor e muito mais conectado.”
Essa parceria demonstra como a conservação das aves migratórias pode aproximar povos, culturas e territórios separados por milhares de quilômetros, mas unidos pelas mesmas aves e pelas rotas que elas percorrem a cada ano.
Para mais detalhes, leia nosso diário de campo: Flying with Shorebirds
Leia um relato das experiências de John e Linda Turner na Lagoa do Peixe: Migrating with Shorebirds, Where the Stars are Upside Down

